Tecnologia

Nova central de bioenergia transforma resíduos orgânicos em eletricidade e fertilizantes

Julho 13, 2026

Avanço na gestão de resíduos orgânicos

A Universidade de São Paulo (USP) deu um passo significativo no campo da sustentabilidade ao apresentar oficialmente uma central de bioenergia de alta tecnologia. Esta unidade, instalada no Instituto de Energia e Ambiente (IEE-USP), foi projetada para transformar resíduos orgânicos em recursos valiosos, como eletricidade, biometano e biofertilizantes. O projeto é amplamente reconhecido como uma das iniciativas mais avançadas de economia circular na América Latina, demonstrando como o reaproveitamento de materiais pode gerar benefícios ambientais e económicos.

Atualmente, a infraestrutura tem capacidade para processar até 25 toneladas de resíduos orgânicos diariamente. A matéria-prima utilizada provém, na sua maioria, dos restaurantes da Cidade Universitária e de instituições parceiras, garantindo um fluxo constante de material para o funcionamento do sistema.

Histórico e desenvolvimento do projeto

O percurso desta central começou a ser traçado em 2018, quando o projeto foi idealizado. Após anos de investigação e construção, a unidade entrou em operação parcial em 2021. A maturidade do projeto foi atingida com a implementação da Unidade de Produção de Biometano, que permitiu o aproveitamento integral dos resíduos alimentares. Com um investimento total de cerca de 10 milhões de reais, a central opera agora em pleno regime, consolidando-se como um modelo de referência.

O processo técnico de biodigestão

A tecnologia central por trás desta inovação é a biodigestão anaeróbia. Trata-se de um processo biológico complexo no qual microrganismos decompõem a matéria orgânica em um ambiente sem a presença de oxigénio. Este processo resulta na produção de biogás, que é rico em metano. Após passar por um rigoroso processo de purificação, o biogás é convertido em biometano, um combustível renovável versátil que pode ser utilizado para abastecer veículos ou ser injetado na rede de gás.

Os dados técnicos indicam que cada tonelada de resíduos processada gera aproximadamente 120 metros cúbicos de biogás. Este volume é capaz de produzir entre 160 e 200 kWh de eletricidade. Alternativamente, o biogás pode ser convertido em 100 a 120 metros cúbicos de biometano, oferecendo uma alternativa sustentável à gasolina ou ao gás natural. Além da energia, o processo gera cerca de 800 litros de digestato por tonelada, permitindo a recuperação de aproximadamente 12 quilogramas de fertilizantes orgânicos.

Impacto económico e ambiental

A implementação desta central traz benefícios diretos para a gestão de resíduos. Ao desviar o lixo orgânico dos aterros sanitários, a universidade reduz drasticamente os custos operacionais. Anteriormente, a instituição despendia cerca de 500 reais por tonelada para o envio destes resíduos a aterros. Com a nova central, esse custo é mitigado, enquanto a instituição passa a gerar energia e combustíveis renováveis, criando uma fonte de receita e promovendo a autossuficiência energética.

O uso do biofertilizante resultante do processo também contribui para uma agricultura mais sustentável, reduzindo a dependência de fertilizantes minerais e devolvendo nutrientes ao solo de forma controlada.

Potencial de replicação e visão futura

Os responsáveis pelo projeto acreditam que o modelo é altamente replicável. Municípios, indústrias alimentares, centrais de abastecimento e grandes cadeias de restauração poderiam adotar tecnologias semelhantes para gerir os seus resíduos. Estimativas técnicas sugerem que cerca de 300 unidades seriam suficientes para tratar todo o volume de resíduos orgânicos domésticos gerados na cidade de São Paulo. Para o estado, seriam necessárias cerca de 600 centrais, enquanto três mil unidades poderiam processar a totalidade dos resíduos orgânicos urbanos produzidos no Brasil.

Especialistas da área reforçam que iniciativas desta natureza são fundamentais para a transição para uma economia circular. Num cenário global onde os resíduos orgânicos compõem mais de metade do lixo urbano, a valorização energética surge como uma solução estratégica para reduzir a pressão sobre os aterros e mitigar as emissões de gases com efeito de estufa, integrando a produção de energia limpa com a gestão eficiente de nutrientes.

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