Educação

Investigação académica defende o regresso da literatura ao centro do ensino da língua

Julho 12, 2026

Uma nova abordagem para o ensino da língua

Uma recente investigação académica alcançou a classificação máxima na Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes, destacando-se pela sua proposta de transformação profunda no ensino da língua portuguesa. O trabalho, defendido pelo investigador Lucílio Orlando Manjate, obteve 20 valores, uma nota de excelência atribuída pelo júri do Programa de Doutoramento em Ciências da Linguagem Aplicadas ao Ensino de Línguas. A tese, intitulada “Estudo das representações discursivas das narrativas sobre Magaíza: um contributo para a didáctica da língua portuguesa”, vai além da análise literária, propondo uma reflexão sobre as metodologias pedagógicas atuais.

O papel da literatura na formação do cidadão

O estudo centra-se na figura do “Magaíza”, o trabalhador migrante que regressa das minas, explorando como esta personagem foi representada por diversas gerações de escritores. Contudo, o foco central da investigação reside na crítica à forma como a literatura tem sido tratada no ambiente escolar. Segundo o autor, o ensino da língua portuguesa tem-se afastado progressivamente dos textos literários, privilegiando, em detrimento destes, exercícios gramaticais e textos de natureza institucional. Esta mudança de paradigma é apontada como um fator que compromete a qualidade da aprendizagem e a formação de competências essenciais.

Para o investigador, a literatura não deve ser reduzida a um mero suporte para o ensino de regras gramaticais. Pelo contrário, a linguagem deve ser entendida como um fenómeno social, capaz de formar cidadãos mais críticos e conscientes. O afastamento dos textos literários das salas de aula é identificado como uma das causas das dificuldades de leitura, interpretação e comunicação que muitos estudantes apresentam ao chegar ao ensino superior.

Lacunas nos programas curriculares

A investigação aponta ainda para uma desatualização dos programas escolares, que permanecem excessivamente centrados em autores de décadas passadas. A ausência de escritores contemporâneos, pertencentes à chamada “geração 21”, é considerada uma lacuna grave que impede o sistema de ensino de acompanhar as transformações sociais e culturais. O autor defende uma reforma curricular que integre a literatura contemporânea e promova uma abordagem mais participativa, onde o aluno assuma um papel central na construção do conhecimento.

Desafios e perspectivas futuras

A obtenção deste grau académico foi marcada por um percurso de dedicação pessoal, tendo o investigador conciliado a sua atividade docente com a investigação, sem o apoio de bolsas de estudo. Este esforço reflete o compromisso com a produção de conhecimento rigoroso. O sucesso da tese abre agora portas para o aprofundamento do estudo da figura do Magaíza em outras formas de expressão artística, como o cinema, a fotografia e a música, alargando o horizonte de análise para além do texto escrito.

O contexto da educação literária

Em termos gerais, o debate sobre o lugar da literatura no currículo escolar é um tema recorrente nas ciências da educação. Historicamente, a tensão entre o ensino técnico da gramática e a fruição estética da literatura reflete diferentes visões sobre o papel da escola. Enquanto a gramática fornece as ferramentas estruturais da língua, a literatura oferece o contexto cultural, o desenvolvimento da empatia e o estímulo ao pensamento abstrato. Quando o equilíbrio entre estas duas vertentes é perdido, especialistas sugerem frequentemente que o desinteresse dos alunos pode aumentar, uma vez que a língua perde a sua ligação com a experiência humana e a realidade social.

A integração de autores contemporâneos, por sua vez, é frequentemente defendida como uma estratégia para aumentar a relevância do currículo, permitindo que os estudantes se identifiquem com as temáticas abordadas. Ao trazer para a sala de aula textos que dialogam com o presente, as instituições de ensino podem fomentar um ambiente mais dinâmico, onde a língua portuguesa é vista não apenas como um conjunto de normas, mas como um instrumento vivo de expressão e reflexão crítica sobre o mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *