POLÍTICA

Bloco de Esquerda questiona Governo sobre adjudicação de serviços da Lusa a militantes do PSD

Julho 10, 2026

Contexto da interpelação parlamentar

O Bloco de Esquerda (BE) apresentou recentemente um conjunto de questões ao Governo, dirigidas ao Ministério da Presidência, sobre a transparência nos processos de contratação pública realizados pela agência de notícias Lusa. A iniciativa surge na sequência de informações que apontam para a adjudicação de serviços a uma empresa detida por militantes do Partido Social Democrata (PSD), levantando dúvidas sobre os critérios de seleção e a salvaguarda da independência da agência.

Detalhes da adjudicação em causa

Em causa está o desenvolvimento de uma solução técnica para a gestão da newsletter diária da agência, denominada ‘Hoje Acontece’. Segundo os dados levantados, o contrato ascende a 63.490 euros, acrescido de IVA, e foi celebrado com a empresa ‘Able IT’. A questão central levantada pelo deputado único do BE, Fabian Figueiredo, prende-se com o facto de os detentores da referida empresa serem militantes do PSD, o que motivou um escrutínio sobre a idoneidade e os procedimentos de escolha.

O presidente do Conselho de Administração da Lusa, Joaquim Carreira, justificou a decisão através de um processo de consulta a três entidades. O critério de adjudicação adotado foi o da proposta economicamente mais vantajosa, tendo como base exclusiva a avaliação do preço. Esta metodologia tem sido alvo de debate, uma vez que, ao privilegiar apenas o custo, pode descurar a avaliação da experiência técnica ou do histórico de competências da entidade contratada, um ponto que permanece sem esclarecimento público detalhado.

A posição do Governo e o modelo de governação

Em resposta às questões levantadas, o gabinete do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, sublinhou que o Governo não detém conhecimento, não é consultado e não intervém nas decisões de contratação de empresas públicas, incluindo a Lusa. Esta posição reforça a autonomia administrativa da agência, mas o BE contrapõe que o Executivo detém a responsabilidade pela arquitetura estatutária e pela nomeação dos órgãos sociais, o que, na visão do partido, cria uma contradição entre a teoria da não interferência e a realidade da nomeação política dos gestores.

Histórico e preocupações institucionais

O caso atual não é um evento isolado, segundo o BE. O partido recorda episódios anteriores, como a celebração de um contrato de consultoria de comunicação por ajuste direto com a empresa Miguel Guedes GMT, Lda., no valor de 16.200 euros, para as comemorações dos 40 anos da agência. Estas situações têm gerado críticas por parte de sindicatos e da Comissão de Trabalhadores da Lusa, que temem que o novo modelo de governação da empresa facilite a influência política.

O debate estende-se ainda à alteração dos estatutos da agência. Embora o Governo defenda que as mudanças reduzem os poderes de controlo direto do Executivo, o BE argumenta que a prática demonstra uma fragilidade nos mecanismos de fiscalização. O partido questiona se, perante estes episódios, a agência mantém efetivamente a independência que se pretende de um órgão de comunicação social de referência.

Implicações e questões levantadas

O BE pretende obter esclarecimentos sobre se o Governo considera adequado que uma empresa pública utilize o critério de preço como fator único de decisão, especialmente quando a entidade selecionada possui ligações partidárias. Além disso, o partido questiona se o Executivo tenciona solicitar uma auditoria ou esclarecimentos adicionais junto de entidades de supervisão, como o Tribunal de Contas ou a Inspeção-Geral de Finanças (IGF), para garantir que não houve favorecimento ou falta de rigor técnico.

A questão da transparência na gestão de dinheiros públicos é um tema recorrente na administração pública. Em contextos de contratação por ajuste direto ou consulta limitada, a exigência de critérios objetivos e a demonstração de competência técnica são fundamentais para evitar perceções de conflito de interesses. O escrutínio parlamentar funciona, nestes casos, como um mecanismo de fiscalização democrática, garantindo que as instituições públicas operam sob padrões de imparcialidade e eficiência, independentemente das afinidades políticas dos seus fornecedores.

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