Avanços e desafios na inclusão financeira
O Banco de Moçambique divulgou recentemente o seu Relatório de Inclusão Financeira, revelando um cenário de contrastes significativos no panorama económico nacional. Embora o ano de 2025 tenha sido marcado por progressos notáveis na expansão dos serviços financeiros, impulsionados fundamentalmente pela digitalização e pelo papel crescente das instituições de moeda electrónica, o documento sublinha que o acesso e a utilização efectiva destes serviços permanecem desiguais. Estas disparidades manifestam-se de forma acentuada entre diferentes províncias, bem como entre homens e mulheres, exigindo uma reflexão profunda sobre as políticas de inclusão em vigor.
O papel da literacia e da proteção ao consumidor
Um dos pontos centrais do relatório é a correlação entre a exclusão financeira e os baixos níveis de literacia, tanto financeira como digital. A capacidade de um cidadão interagir com o sistema bancário ou com plataformas digitais depende diretamente do seu conhecimento sobre o funcionamento destes mecanismos. Além disso, o Banco de Moçambique aponta que fragilidades na proteção do consumidor constituem barreiras adicionais. A falta de confiança ou de compreensão sobre os direitos e deveres no uso de serviços financeiros pode afastar potenciais utilizadores, tornando imperativo que as estratégias futuras incluam programas de educação financeira adaptados aos diferentes grupos populacionais.
Disparidades geográficas e infraestrutura
A distribuição dos pontos de acesso aos serviços financeiros revela uma concentração geográfica que perpetua desigualdades. Enquanto áreas como a cidade e a província de Maputo apresentam níveis de cobertura elevados, regiões como Niassa, Nampula, Zambézia e Cabo Delgado enfrentam índices significativamente mais baixos. Esta assimetria limita o desenvolvimento económico local e dificulta a integração das populações rurais no sistema financeiro formal. O relatório indica que, entre 2024 e 2025, a disponibilidade de serviços financeiros registou uma redução de 3,6 pontos, um dado que reflete as dificuldades persistentes na distribuição da infraestrutura financeira pelo território.
A transformação digital como motor de mudança
Apesar dos desafios estruturais, a digitalização apresenta-se como a principal força de mudança. O crescimento de 36% no número de pontos de acesso, comparativamente a 2024, é amplamente sustentado pelo aumento de 42% dos agentes de moeda electrónica. Estes agentes desempenham um papel crucial, funcionando como a principal interface entre o sistema financeiro e as populações, especialmente em zonas onde a presença de agências bancárias tradicionais é escassa. Contudo, esta transição para canais digitais exige uma monitorização constante e uma adaptação rigorosa das metas estabelecidas na Estratégia Nacional de Inclusão Financeira para o período 2025-2031.
Dinâmicas de género e mercado de seguros
O relatório traz dados interessantes sobre a participação feminina no sistema financeiro. Observou-se um crescimento expressivo de 24% na posse de contas de moeda electrónica por parte das mulheres. No sector segurador, a tendência de maior adesão feminina também se confirmou, com a participação das mulheres a subir de 21% para 35% entre 2024 e 2025. No âmbito do microsseguro, a presença feminina também registou um incremento, passando de 29% para 39%. Estes números sugerem uma mudança gradual no perfil dos utilizadores, embora o mercado segurador continue fortemente concentrado no seguro tradicional, que representa 98,8% da atividade total.
Financiamento da economia e perspetivas futuras
No que concerne ao financiamento da economia, os dados revelam uma contradição: enquanto os depósitos cresceram para 51% do Produto Interno Bruto (PIB), o crédito concedido sofreu uma ligeira redução, representando 19% do PIB. Este fenómeno indica que, apesar de existir um aumento na capacidade de poupança, o acesso ao crédito para investimentos e atividades económicas continua a ser um desafio. O Banco de Moçambique reforça que a redução destas disparidades é uma condição essencial para um crescimento económico mais equilibrado e inclusivo, reiterando a necessidade de políticas direcionadas que promovam uma maior equidade no acesso aos recursos financeiros em todas as regiões do país.

