Economia

Horticultura global movimenta 1,4 biliões de dólares mas falha no acesso a dietas saudáveis

Setembro 1, 2026

O paradoxo do crescimento na horticultura mundial

A horticultura consolidou-se como um dos pilares mais dinâmicos da agricultura contemporânea, movimentando cerca de 1,4 biliões de dólares e representando aproximadamente um quarto do valor total da produção agrícola global. Contudo, este sucesso económico não tem sido acompanhado por uma melhoria proporcional na disponibilidade e acessibilidade de frutas e hortícolas para as populações, levantando questões sobre a eficácia dos sistemas agroalimentares atuais.

O alerta foi emitido durante o 32.º Congresso Internacional de Horticultura, onde se destacou que, embora a produção de frutas e hortícolas tenha superado o crescimento da produção de cereais entre 2010 e 2024, a oferta real ainda é insuficiente para atender às recomendações nutricionais globais. Em 2024, as exportações do setor atingiram 175 milhões de toneladas, totalizando um valor de 240 mil milhões de dólares, mas estes números escondem uma realidade de desigualdade no consumo.

Desafios nutricionais e disparidades no consumo

As diretrizes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Mundial da Saúde recomendam um consumo diário de 400 gramas de frutas e hortícolas por pessoa. No entanto, a média mundial situa-se significativamente abaixo deste patamar, com um consumo estimado de apenas 270 gramas diários. Em 2023, apenas metade dos países do mundo produzia quantidades suficientes para cumprir as metas de saúde pública recomendadas.

Este cenário é agravado pela volatilidade dos preços. Entre 2016 e 2025, observou-se um aumento constante nos preços pagos aos produtores, com subidas anuais medianas superiores a 4% tanto para frutas como para hortícolas. Contudo, o preço final ao consumidor é frequentemente inflacionado por ineficiências na cadeia de distribuição, custos de transporte e perdas pós-colheita, tornando os alimentos frescos menos acessíveis para as camadas mais vulneráveis da população.

O impacto na África Subsaariana

As projeções para a África Subsaariana são particularmente preocupantes. Estima-se que, mantendo-se as tendências atuais, menos de um terço dos países da região conseguirá atingir a disponibilidade necessária de frutas e hortícolas até 2050. Fatores como o rápido crescimento populacional, a urbanização acelerada e a falta de infraestruturas básicas — como sistemas de irrigação eficientes, mecanização e armazenamento refrigerado — limitam a capacidade de resposta do setor.

Além disso, as alterações climáticas impõem riscos adicionais, com a irregularidade das chuvas e o aumento das temperaturas a afetarem culturas sensíveis. A falta de tecnologias de precisão e de assistência técnica impede que os pequenos produtores, que representam a maioria das unidades produtivas na região, consigam mitigar estes riscos e estabilizar a sua produção.

A necessidade de inovação e investimento

A produtividade na horticultura tem crescido a um ritmo inferior a 1% ao ano, um desempenho que especialistas atribuem ao investimento insuficiente em investigação e desenvolvimento. Embora existam inovações tecnológicas, como a biotecnologia, sistemas de irrigação de precisão e o uso de inteligência artificial, a sua adoção permanece desigual. A falta de financiamento e de conectividade nas zonas rurais impede que estas ferramentas cheguem a quem mais precisa.

A integração dos pequenos produtores nas cadeias de valor é essencial. Isto requer não apenas o fornecimento de insumos, mas a criação de serviços de extensão rural, o acesso a mercados organizados e a formação contínua. A organização em cooperativas pode ser um caminho para reduzir custos logísticos e aumentar o poder de negociação destes agricultores.

Infraestrutura e o papel da cadeia de frio

Uma das maiores causas de desperdício e perda de rendimento é a ausência de uma cadeia de frio eficiente. Frutas e hortícolas são produtos altamente perecíveis; sem embalagens adequadas e transporte refrigerado, uma parcela significativa da colheita deteriora-se antes de chegar ao consumidor. A implementação de soluções descentralizadas, como o uso de energia solar para refrigeração, pode ser um fator determinante para prolongar a vida útil dos produtos e estabilizar os preços no mercado.

Em última análise, o sucesso da horticultura deve ser medido não apenas pelo volume de exportações ou pelo valor comercial gerado, mas pela capacidade de transformar o setor numa ferramenta de segurança alimentar. O foco deve recair sobre a criação de sistemas que garantam que alimentos saudáveis cheguem à mesa das famílias de forma regular e a preços justos, promovendo um desenvolvimento que seja, simultaneamente, económico e socialmente inclusivo.

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