Uso Excessivo de Ecrãs Preocupa Especialistas
Investigações recentes indicam que crianças e adolescentes chegam a passar, em média, sete horas diárias conectadas à internet. Este cenário levanta sérias preocupações entre especialistas de saúde, educação e tecnologia sobre os potenciais impactos negativos no desenvolvimento infantil.
O acesso precoce a telemóveis e a produção de conteúdo para redes sociais tornaram-se comuns. Jogos, vídeos curtos, aplicações de comunicação e plataformas sociais fazem parte da rotina de muitos menores. Contudo, o que aparenta ser mero entretenimento pode acarretar riscos significativos.
Impactos na Saúde Mental e Desenvolvimento Cognitivo
A psicóloga Sheila Borges salienta que estudos realizados entre 2022 e 2026 associam o uso prolongado de redes sociais a problemas de saúde mental em adolescentes. Jovens que passam mais de três horas diárias nestas plataformas apresentam maior probabilidade de desenvolver ansiedade e depressão.
O problema inicia-se cada vez mais cedo, com muitas crianças a terem contacto com dispositivos eletrónicos nos primeiros anos de vida. Borges defende que o telefone não deve substituir a função de entreter a criança, apelando aos pais para que invistam em paciência e criatividade.
Além dos efeitos emocionais, o desenvolvimento cognitivo também pode ser afetado. A exposição excessiva e precoce a ecrãs pode interferir no desenvolvimento do córtex pré-frontal, área responsável pelo controlo de impulsos, planeamento e tomada de decisões, que só termina a sua maturação por volta dos 25 anos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda limites estritos: exposição zero a ecrãs para menores de dois anos e, para crianças entre dois e quatro anos, não ultrapassar uma hora diária.
Riscos para a Visão: Miopia e Cegueira
A oftalmologista Tapuwa Banguira alerta para as consequências na visão. O uso continuado de telemóveis, tablets e computadores força os olhos a focarem em distâncias curtas por longos períodos, o que pode levar ao alargamento do globo ocular e ao desenvolvimento de miopia.
A miopia tende a agravar-se com o tempo, aumentando o risco de formas graves, como a miopia patológica, que pode culminar em cegueira na idade adulta.
Algoritmos e a Captura da Atenção Infantil
Lordina Nharrave, coordenadora do Centro de Internet Segura do INTIC, explica que as plataformas digitais usam algoritmos sofisticados para analisar o comportamento do utilizador e apresentar conteúdos personalizados. Esta personalização torna mais difícil para crianças e adolescentes abandonarem as aplicações.
Para além da dependência digital, Nharrave alerta para o risco de partilha de informações pessoais e imagens íntimas, bem como para o assédio sexual online, que continua a ser uma ameaça significativa para os menores.
O Papel Crucial dos Pais e Encarregados de Educação
Na ausência de mecanismos de controlo eficazes nas plataformas, a supervisão ativa dos pais é fundamental. A influenciadora digital Rosy Timane exemplifica um acompanhamento rigoroso, com recolha de telemóveis durante a noite, acesso às contas das filhas e uso de ferramentas de controlo parental.
A sua filha, Niyurica Timane, reconhece a importância de um plano diário de atividades para gerir o tempo online e evitar distrações.
Medidas Restritivas em Vários Países
Enquanto o debate sobre a proteção de menores no ambiente digital se intensifica, alguns países já adotam medidas mais restritivas. Na Austrália, menores de 16 anos são proibidos de aceder às principais redes sociais. França, Reino Unido e Dinamarca também discutem restrições semelhantes.
Em Moçambique, o acesso de menores às plataformas digitais carece de mecanismos efectivos de verificação de idade e fiscalização.
Equilíbrio Entre Ecrã e Infância
Especialistas defendem que a tecnologia não deve ser vista como inimiga, mas sim utilizada com equilíbrio. A mensagem principal é que os menores podem beneficiar do mundo digital, desde que isso não substitua experiências essenciais como brincar, conviver, explorar o mundo real e construir relações fora dos ecrãs.
Nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, pode substituir a essência da infância.


